Rafael AraújoRafael AraújoFURA A BOLHA
Início›Edições›Os quatro que furaram
Números abertos · Edição #2 · 6 min de leitura

Os quatro que furaram

Rafael Araújo
13 ago 2026
● Fura a BolhaLeia online
Edição #2 · 31/07 a 07/08
Os quatro que furaram

Os quatro posts que mais furaram a bolha em julho começam dizendo que eles mesmos não prestam.

Parece autossabotagem, eu sei. A gente aprende a vender o próprio conteúdo na primeira linha, prometer o que ele tem de melhor, mostrar que vale o tempo de quem lê. Calma que eu te explico, porque os números aqui são bem específicos e eu abri todos.

Julho fechou com 1.316.830 views em 52 posts. Quatro passaram de 100 mil. Os outros 48 não passaram, e a maior parte nem chegou perto. Isso é o normal e continua sendo, e quem te disser o contrário está vendendo alguma coisa.

Mas os quatro que furaram têm a mesma abertura, e ela é o oposto do que se ensina:

O maior fez 705 mil views com uma base de 19 mil seguidores. Ele começa assim: "os posts que mais trazem gente nova pro meu perfil são os que parecem bobos demais pra funcionar."

O terceiro fez 112 mil. Começa com "parece papo de gente preguiçosa. Mas o post que você acha básico demais é o que mais traz gente nova."

O quarto fez 110 mil, e é o mais interessante. Ele começa dizendo: "a maioria pede pro ChatGPT um post bom. E ele entrega um post bom, que ninguém manda pra ninguém."

Repare no que os três fazem. Eles pegam a própria ideia e chamam ela de boba, preguiçosa ou insuficiente, antes de qualquer promessa.

O motivo não é humildade. É que quem não te conhece já chegou desconfiado. Se você abre defendendo o seu conteúdo, você entra na briga do lado errado. Se você abre concordando com a desconfiança dela, você vira o único que está sendo honesto na tela inteira dela.

E aqui vale separar duas coisas que quase ninguém separa: desqualificar a ideia e desqualificar a pessoa.

"Parece bobo demais" fala da técnica. A pessoa concorda com você e continua lendo.
"Você é bobo por não usar isso" fala dela. A pessoa fecha o post.

A mira é sempre a ideia, nunca quem está do outro lado.

O vilão dessa história é a promessa inflada. Ela parece o caminho seguro, porque todo mundo faz, e é justamente por isso que ela não funciona mais. Quando toda primeira linha promete transformação, a que admite um defeito é a única que soa como gente.

Uma coisa que eu preciso dizer, porque seria fácil não dizer: quatro casos não são lei. Eu vou continuar publicando e olhando, e se em setembro a conta não se repetir, eu volto aqui e conto.

O que eu tenho hoje é isto: meus três maiores começam admitindo um defeito, e os 48 que não furaram, quase nenhum começa assim.

O que fazer amanhã, se você quiser testar: pegue o próximo post que você já tem na cabeça e escreva a primeira linha assim. "Parece" mais alguma coisa que faça a sua técnica soar boba, velha, preguiçosa ou pequena demais. Depois um "mas". Depois a promessa concreta, com as palavras que o seu público usa.

Se você não souber qual defeito nomear, faça a pergunta ao contrário: o que alguém do seu ramo diria em voz alta pra desmerecer o que você faz? É essa a frase.

Porque no fim é isso. Conteúdo não morre por ser fraco. Morre por chegar prometendo demais numa tela onde todo mundo já promete demais.

O que andou essa semana
Os conteúdos que renderam mais, e o porquê de cada um ter andado. Olha a estrutura por trás, não só o assunto.
01 · Carrossel
A maioria pede pro ChatGPT um post bom. E ele entrega um post bom, que ninguém manda pra…
alcançou 5,5 vezes o tamanho da base, trouxe 9,9 seguidores a cada mil alcançados, 4.553 compartilhamentos.
ver o post →
02 · Carrossel
Curtida é gentileza. A pessoa gostou, bateu duas vezes na tela e foi embora.
4.399 pessoas alcançadas.
ver o post →
03 · Reel
O motivo de você postar e quase ninguém ver não é o horário, não é a hashtag e…
2.997 pessoas alcançadas.
ver o post →
04 · Imagem
Seu post te respondeu. Ele respondeu em número, e ninguém te ensinou a ler número. Vou…
2.904 pessoas alcançadas.
ver o post →
05 · Carrossel
Parece cópia descarada, mas o post que você não faz por medo de parecer cópia é o que mais…
2.408 pessoas alcançadas.
ver o post →
O achado da semana
O Jogador, de Dostoiévski
Dostoiévski escreveu este livro em 26 dias porque estava afundado em dívida de jogo. Tinha assinado um contrato com um editor que dizia: se o livro não ficasse pronto na data, o editor ficaria com os direitos de tudo que ele escrevesse pelos nove anos seguintes. Ele ditou o romance inteiro pra uma estenógrafa contratada às pressas. Entregou no prazo. Depois se casou com ela. E o assunto do livro é justamente o vício dele. Um homem que perde tudo na roleta, sabe que está perdendo, explica direitinho por que está perdendo, e joga de novo. Por que eu indico isso pra quem cria conteúdo: é curto, umas 200 páginas, e você mata num fim de semana. É a porta de entrada mais fácil pra um autor que tem fama de difícil. E é uma aula do que a gente tenta fazer aqui toda semana, que é escrever alguém por dentro em vez de descrever alguém por fora. Você não fica olhando o jogador. Você fica dentro da cabeça dele, achando as desculpas dele razoáveis. Isso é o que faz um leitor não largar. Se você nunca leu Dostoiévski e acha que é coisa de gente que tem tempo, começa por este.
ver na página dos achados →
O boteco da semana

Semana dessas, andando de carro com a minha esposa, ela viu uma placa de vende-se na rua e falou que queria conhecer aquela casa.

Placa comum, dessas que a gente passa direto por dezenas. Nome do bairro, preço, quantas suítes, telefone. E no meio de tudo isso, uma frase que não era técnica: uma gracinha.

Foi só isso. Uma casa de milhões, e o que fisgou ela foi um diminutivo.

O que me pegou não foi a palavra, foi o tamanho da distância que ela atravessou. Casa de milhões é assunto de banco, de escritura, de dívida. Gracinha é assunto de gente. A mesma casa, dois mundos, e o que separa os dois é uma letra.

Fiquei pensando em quantas vezes eu escrevo certo e não aproximo ninguém. Tudo correto, tudo profissional, tudo distante.

Ela não quis ver a casa. Ela quis ver a gracinha.

O denso fica no YouTube
Aqui cabe o resumo. Lá eu abro o estudo inteiro, o caso e o passo a passo, sem pressa de algoritmo.
Assinar o canal
Seja forte e corajoso 💪

Essa edição te deu algo pra usar?

Uma resposta só, sem cadastro. É o que me diz o que escrever na próxima.

O melhor da semana, reunido num e-mail só

Toda semana eu junto os conteúdos que renderam de verdade e mando por e-mail, com o porquê de cada um ter andado. Pra você usar no seu próprio conteúdo.

Um e-mail por semana, no máximo. Só o que já foi ao ar, nada de rascunho. Você sai quando quiser.

Continue lendo

Outras edições.